15/10/2014

Old days

Caminhou devagar a ver o sol, e os pombos do largo Camões e respirou fundo. Sentou-se na esplanada da Brasileira e pediu uma bica “dupla sem açúcar, por favor”. Deixou-se ficar ali, a ver o desfile de cor e sotaques, de gente simples que subia atarefada ou distraída a arrastar sacos da H&M e da Zara, os tocadores de flauta, e o raio de sol que por instantes roçou o eléctrico que se arrastava rua acima. O café amargo e quente consolou-a.“Ridícula” pensou, uma vez mais, começava a ser a história da sua vida, sentir-se ridícula nas suas dores e mágoas. E retraía-se com medo de se rever naquelas mulheres neuróticas às voltas com os dramas da manicura e da babysitter e do marido workholic em fatos Armani e a maçada dos jantares de família. “Estou quase lá, já vou ao psi.” Riu-se, para dentro, e por momentos, voltou a sentir-se irónica e simples.

08/10/2014

Os despojos da noite






















Fecho os olhos e "the movie goes on, and on, and on...". Não tenho interruptores nem comprimidos que ponham fim à "never ending story". Fecho os olhos e tento dormir, já passou, já passou, regressa a ti, volta a ser, respira, lenta, pausadamente, fuma mais um cigarro. A janela da frente tem gente, como eu, querem ver o nascer do sol ou a insónia não deu tréguas. Rendo-me. Por favor vence-me, vence-me, cansa-me, ou gasta-me, medos e dúvidas e medos e terrores nocturnos e medos. Agora não, agora quero fechar os olhos e ter uma película nova, com fotogramas brilhantes sem sombras. Por favor. Acende outro cigarro e dá uma festa ao gato. Fecho os olhos com força, mais umas gotas, sete para ser precisa, e já vejo o topo da serra e o abutre de asas abertas, fogem os pardais da muralha e o sono não vem. Já passou, já passou, os dias das sombras, talvez. Fecho os olhos e ele lá está, à minha espera, pausado no momento exacto em que a ponta dos dedos pousou no tampo da mesa do café e o cigarro morria no cinzeiro, naquele segundo que não passa porque ficou congelado nos dias que não foram meus. E depois o cinzento, espesso, húmido, permanente, uma neblina de sentidos e acordo. Sufoco e o sono tarda. Fecho os olhos e sento-me na primeira fila deste filme que "goes on, and on, and on..."


03/10/2014

Stardust

No quintal da terra da raia, nesta noite de Agosto, escura e cortada por uma brisa leve, por entre o breu e e a sombra da serra, quase que a tocar a fantasmagórica capela na coroa da escarpa que conheço de olhos fechados, vi uma estrela cadente. Foi um tão breve instante que poderia apenas ter imaginado aquele fogo fátuo a cruzar os céus. Mas não, vi-a. E arrepio-me sempre com estas analogias perfeitas da vida.

19/09/2014

Dicotomia é...


















... ficar dividida entre o orgulho imenso de ter a filha mais velha ao nosso lado num evento público, a portar-se muito além do que seria expectável numa quase adolescente, e a saudade profunda da menina pequena que ainda agora pedia ajuda para calçar os sapatos.

12/09/2014

Biofobia

























Tremo a cada distância, desfaleço ensandecida pelos quilómetros entre o aqui e agora e o até breve. Palpito e ando sem destino como se os passos desconhecessem a estrada e o coração o seu ritmo. À noite, quando o mundo escurece e sossega, acordam os dias do tempo de antes, passeiam-se por entre os meus dedos e engolem-me os sonhos, e regresso ao que fui e tremo.

11/09/2014

9/11


Fotografia de Justin Lane Pool/Getty Images


















...recordem sempre os que caíram mas recordem os que ficaram. E que desta memória nasça, finalmente, a Paz.

31/07/2014

As árvores morrem de pé


















Na verdade nunca saí de casa. É para lá que se dirigem pensamentos e os passos sempre que os dias me pesam. Aquela casa, pequena, onde me junto aos meus irmãos, ao mais velho para o café de sábado onde se conta a semana; o mais novo, de quando em vez, quando chega à cidade em busca de novidades mas já ansioso pela serrania e pelos balidos das ovelhas. Naquela rua, onde cresci, chamam-me pelo nome de antes, e dão-me beijos, apreciam-me a cintura e as filhas. O meu pai espera por mim para a bica da manhã no café que me viu crescer, e recebo beijos das vizinhas velhas e gargalhadas e palmadas nas costas dos amigos de infância. Em frente ao café, na escadaria velha e suja e gasta pelos dias, sentamo-nos de cigarro nos dedos e discutimos, como antes, no tempo em que a conversa não era cortada pelo telemóvel ou pelo último gadget, política, notícias, famílias, amores e desamores, filhos e o ordenado que vai curto. Noto que estou em minoria, a menina no meio dos rapazes, e sorrio, também como antes. Na verdade nunca saí de onde cresci porque não se arrancam as raízes à árvore sem que ela morra.

A imutabilidade

















Passaram 28 anos, 336 meses, 1461 semanas, 10227 dias, 245448 horas e 14726880 minutos... passaram?

22/07/2014

11/07/2014

Assim começa Abril (10)


Recordava as palavras da família “não vás, aquilo é a selva e mato. E depois há as doenças e os meninos são ainda tão pequenos. Não vás!”. Diziam-lhe repetidamente até mesmo na despedida na Portela as últimas palavras foram as da mãe, lavada em lágrimas, a pedir-lhe para ficar. Como podia não ir se do outro lado do mar ele lhe escrevia “...“...minha querida, por cá está tudo bem. O hotel é agradável e limpo, só as saudades de ti e dos meninos me tiram o sono. Um beijo grande deste que te adora a ti e aos nossos filhinhos”. Guardava o postal que mostrava a avenida larga e o largo do centro da cidade. Gasto de tanto ser lido, à noite, na cama demasiado grande para o seu corpo sozinho. E por isso esperava, suada, que o marido, chegasse para a levar para a casa prometida, no bairro novo onde moravam os que chegavam da metrópole.

09/07/2014

Assim começa Abril (9)

Passada a festa, os amigos ficaram. Espalhados pela sala, encostados à janela a receber a brisa nocturna e a cantoria dos grilos. Ainda não deixava de se espantar com o negrume do céu, o brilho das estrelas e com aquele vento morno de cheiros e sons. Alguém traduzia as notícias em inglês e eles escutavam em silêncio as novas da terra do outro lado do mar. “Somos tantos aqui”, pensou. Não se lembrava de reuniões destas na casa em Portugal. Mas lembrava-se do cheiro a medo que aqui se diluia entre a cerveja fresca e os amendoins torrados. Aqui, a liberdade permitia-lhe saias curtas e pele bronzeada, passeios ao cair do dia para ir ver os batuques que começavam mal o sol se punha. Encostada à porta da cozinha, protegida pelo mosquiteiro espreitou a luz que vinha do quarto dos empregados. Que fariam eles à noite quando não dançavam? sabia que muitos liam e estudavam na esperança de mudar o rumo dos dias; outros escutavam rádio e acompanhavam as manobras da Frelimo. Mas não tinha medo. Gostava daquela gente de trabalho, que sorria, que sorria sempre.

08/07/2014

Assim começa Abril (8)

Na escola nova, branca de telhado vermelho e um só piso, com um recreio de terra batida e crestada pelo sol, podia correr. Gostava disso, das corridas até ao pau de bandeira e do jogo do elástico. Depois do hino, entrávamos ordeiramente na sala. Sentava-me na carteira da primeira fila, uma recompensa por já saber ler e escrever. E frente a mim, em cima de um palco de madeira clara, a secretária velha e a professora nova, de cabelo liso e sorriso aberto. Chamava-nos fila por fila. Era a hora da leitura. Abria o livro e os meninos à sua volta iam soletrando as palavras que enchiam as páginas que falavam do António e da Maria e das maçãs maduras que colhiam no Outono quando as folhas se tornavam douradas e no Norte começa a vindima. E eu pensava que aqui, nesta terra quente, não havia folhas douradas nem uvas maduras, e que o frio não era mais do que a brisa fresca que chegava de madrugada. Nessa altura pensava que o que lia não era mais do que a história de uma terra imaginária pois a memória dos dias de antes, da terra longínqua do outro lado do mar, já tinha sido engolida por esta terra nova onde os dias eram de aventura e liberdade. Gostava daquele momento da leitura, colados uns aos outros, com as cabeças debruçadas sobre o livro e a sentir o perfume com cheiro a limão da professora. Aqui havia meninos de muitas cores. Negros, mulatos, indianos e meninos exóticos vindos de Macau que sorriam muito e percebiam pouco da língua estranha que começavam a aprender. Mas brancos, vindos do outro lado do mar, só mesmo eu e o mano.

07/07/2014

[sem título]



Não são as minhas palavras que deves temer, mas sim os meus silêncios. Aqueles em que recuo para o âmago, para o centro, para dentro. E cerro as cortinas por sobre as dores. Os meus silêncios esses sim são a penumbra que anuncia a noite e afasta qualquer alvorada. São os meus silêncios que deves temer, tudo aquilo que não digo e penso, neste mundo só meu, estéril e vazio, onde traço linhas e fronteiras. Não são as palavras que me caem por entre a comissura dos lábios ou que lanço por entre as cadeiras e os livros, essas não são de temer por se dissiparem como o vapor do banho. Mas os silêncios, oh, os silêncios, esses sim. Sãos os meus silêncios que deves temer. Deves recear quando olho a janela porque já não estou ali, voei para longe, onde nada me alcança. O momento em que entro na água e a deixo tocar-me os joelhos e depois a cintura até me cobrir por inteiro e me desfazer em sal. O instante antes de adormecer em que olho o tecto e vejo nele a memória dos dias. São os silêncios de breves instantes ou dias sem fim, que deves temer.

16/06/2014

Crónica dos dias felizes


Three children on a horse at Lake Conjola from The Powerhouse Museum




















Espreito a conta bancária a coberto da noite que se fez quente e não tem brisa. Coloco os códigos sabendo que os negativos hão-de ser feitos de aspirinas, e óculos, listas de compras e gelados que os dias vêm sendo de brasia. Rio-me porque conheço de cor e às cegas este guião mensal que há muito, muito tempo, deixou de me tirar o sono e de dar raízes às preocupações. E depois ouço lá dentro o rir dos meninos depois do banho. São três e estão na sala, na inocência dos primos pequenos que ainda brincam de pijama e matam aliens na Wii. Fecho o computador devagarinho, e deixo-me ficar encostada à porta fechada a escutar as gargalhadas. Sei que sou feliz.

11/06/2014

The world as we knew



A nossa história é feita de ausências. De partidas. Crescemos no espaço entre o olá e o até breve e morremos no longo intervalo do "para sempre". Ausências de afectos e de mãos que nos esperam à saída da cirurgia ou nos interrompem pesadelos. Ausência do amor que ainda agora era tanto e se perdeu, sem sabermos porquê, no correr da voragem da vida. Na partida porque é tarde ou não posso, no dever, no cumprimentos do fado. A nossa história é feita de ausências e de partidas, por isso chegar a bom porto, por fim, em uníssono, é quase inimaginável.