22/07/2014

11/07/2014

Assim começa Abril (10)


Recordava as palavras da família “não vás, aquilo é a selva e mato. E depois há as doenças e os meninos são ainda tão pequenos. Não vás!”. Diziam-lhe repetidamente até mesmo na despedida na Portela as últimas palavras foram as da mãe, lavada em lágrimas, a pedir-lhe para ficar. Como podia não ir se do outro lado do mar ele lhe escrevia “...“...minha querida, por cá está tudo bem. O hotel é agradável e limpo, só as saudades de ti e dos meninos me tiram o sono. Um beijo grande deste que te adora a ti e aos nossos filhinhos”. Guardava o postal que mostrava a avenida larga e o largo do centro da cidade. Gasto de tanto ser lido, à noite, na cama demasiado grande para o seu corpo sozinho. E por isso esperava, suada, que o marido, chegasse para a levar para a casa prometida, no bairro novo onde moravam os que chegavam da metrópole.

09/07/2014

Assim começa Abril (9)

Passada a festa, os amigos ficaram. Espalhados pela sala, encostados à janela a receber a brisa nocturna e a cantoria dos grilos. Ainda não deixava de se espantar com o negrume do céu, o brilho das estrelas e com aquele vento morno de cheiros e sons. Alguém traduzia as notícias em inglês e eles escutavam em silêncio as novas da terra do outro lado do mar. “Somos tantos aqui”, pensou. Não se lembrava de reuniões destas na casa em Portugal. Mas lembrava-se do cheiro a medo que aqui se diluia entre a cerveja fresca e os amendoins torrados. Aqui, a liberdade permitia-lhe saias curtas e pele bronzeada, passeios ao cair do dia para ir ver os batuques que começavam mal o sol se punha. Encostada à porta da cozinha, protegida pelo mosquiteiro espreitou a luz que vinha do quarto dos empregados. Que fariam eles à noite quando não dançavam? sabia que muitos liam e estudavam na esperança de mudar o rumo dos dias; outros escutavam rádio e acompanhavam as manobras da Frelimo. Mas não tinha medo. Gostava daquela gente de trabalho, que sorria, que sorria sempre.

08/07/2014

Assim começa Abril (8)

Na escola nova, branca de telhado vermelho e um só piso, com um recreio de terra batida e crestada pelo sol, podia correr. Gostava disso, das corridas até ao pau de bandeira e do jogo do elástico. Depois do hino, entrávamos ordeiramente na sala. Sentava-me na carteira da primeira fila, uma recompensa por já saber ler e escrever. E frente a mim, em cima de um palco de madeira clara, a secretária velha e a professora nova, de cabelo liso e sorriso aberto. Chamava-nos fila por fila. Era a hora da leitura. Abria o livro e os meninos à sua volta iam soletrando as palavras que enchiam as páginas que falavam do António e da Maria e das maçãs maduras que colhiam no Outono quando as folhas se tornavam douradas e no Norte começa a vindima. E eu pensava que aqui, nesta terra quente, não havia folhas douradas nem uvas maduras, e que o frio não era mais do que a brisa fresca que chegava de madrugada. Nessa altura pensava que o que lia não era mais do que a história de uma terra imaginária pois a memória dos dias de antes, da terra longínqua do outro lado do mar, já tinha sido engolida por esta terra nova onde os dias eram de aventura e liberdade. Gostava daquele momento da leitura, colados uns aos outros, com as cabeças debruçadas sobre o livro e a sentir o perfume com cheiro a limão da professora. Aqui havia meninos de muitas cores. Negros, mulatos, indianos e meninos exóticos vindos de Macau que sorriam muito e percebiam pouco da língua estranha que começavam a aprender. Mas brancos, vindos do outro lado do mar, só mesmo eu e o mano.

07/07/2014

[sem título]



Não são as minhas palavras que deves temer, mas sim os meus silêncios. Aqueles em que recuo para o âmago, para o centro, para dentro. E cerro as cortinas por sobre as dores. Os meus silêncios esses sim são a penumbra que anuncia a noite e afasta qualquer alvorada. São os meus silêncios que deves temer, tudo aquilo que não digo e penso, neste mundo só meu, estéril e vazio, onde traço linhas e fronteiras. Não são as palavras que me caem por entre a comissura dos lábios ou que lanço por entre as cadeiras e os livros, essas não são de temer por se dissiparem como o vapor do banho. Mas os silêncios, oh, os silêncios, esses sim. Sãos os meus silêncios que deves temer. Deves recear quando olho a janela porque já não estou ali, voei para longe, onde nada me alcança. O momento em que entro na água e a deixo tocar-me os joelhos e depois a cintura até me cobrir por inteiro e me desfazer em sal. O instante antes de adormecer em que olho o tecto e vejo nele a memória dos dias. São os silêncios de breves instantes ou dias sem fim, que deves temer.

16/06/2014

Crónica dos dias felizes


Three children on a horse at Lake Conjola from The Powerhouse Museum




















Espreito a conta bancária a coberto da noite que se fez quente e não tem brisa. Coloco os códigos sabendo que os negativos hão-de ser feitos de aspirinas, e óculos, listas de compras e gelados que os dias vêm sendo de brasia. Rio-me porque conheço de cor e às cegas este guião mensal que há muito, muito tempo, deixou de me tirar o sono e de dar raízes às preocupações. E depois ouço lá dentro o rir dos meninos depois do banho. São três e estão na sala, na inocência dos primos pequenos que ainda brincam de pijama e matam aliens na Wii. Fecho o computador devagarinho, e deixo-me ficar encostada à porta fechada a escutar as gargalhadas. Sei que sou feliz.

11/06/2014

The world as we knew



A nossa história é feita de ausências. De partidas. Crescemos no espaço entre o olá e o até breve e morremos no longo intervalo do "para sempre". Ausências de afectos e de mãos que nos esperam à saída da cirurgia ou nos interrompem pesadelos. Ausência do amor que ainda agora era tanto e se perdeu, sem sabermos porquê, no correr da voragem da vida. Na partida porque é tarde ou não posso, no dever, no cumprimentos do fado. A nossa história é feita de ausências e de partidas, por isso chegar a bom porto, por fim, em uníssono, é quase inimaginável.

09/06/2014

Em construção...













Colecciono momentos como quem colecciona selos ou postais.E perguntas-me porquê. Porque quando os dias ameaçam engolir a felicidade e o horizonte se fecha sobre a alegria, regresso à minha lista, ao meu baú, à minha colecção de memórias felizes, e sobrevivo. Colecciono momentos, instantes, cromos da felicidade que passa, retalhos a cores, pedacinhos de passado e farrapos de memória para tecer a rede que nos dias tristes me há-de salvar.

06/06/2014

Amorizade é...


















...aquele momento em que o teu amigo de liceu, que te conhece desde os 12 anos, telefona preocupado porque não respondeste aos dois emails de piadas enviados no dia anterior, e acabas a prometer-lhe que se morreres antes dele o irás assombrar todas as noites.

(assim, de repente, fiquei com o coração aconchegado e com um sorriso pateta na cara, e apetece-me ter novamente 12 anos e estar com o J. no sofá a jogar no Spectrum)

The fear

Hoje acordei a gritar. Como nos dias de antes quando o escuro me invadia os ossos e o frio me tolhia os sonhos. Acordei no momento exacto em que o grito se formou e agarrei  a barra do lençol feita de renda e bordados nascidos das mãos da minha avó. Era rouco o grito e desesperado pois me parecia que no fundo da cama ainda escorria a sombra de um fantasma. O mesmo que me atormentou noites insones e dias sem fim, espesso, húmido, acre, infindável, dos dias passados  que me arrancava uivos nocturnos e me fazia cravar as unhas na pele macia do lado de dentro do braço. Hoje acordei a gritar e fiquei ali de olhos fechado a não querer ver porque o medo e a cobardia se combatem da mesma forma: ignorando.

02/06/2014

Dos dias felizes.

Faz sol, lá fora por sobre a relva onde correm as meninas e cachorros pequenos, por sobre a relva ainda húmida e por entre as folhas que estendem o manto de sombra. Faz sol, lá fora, onde o sussurro do vento faz esquecer a cidade e os risos frescos acordam as memória. Faz sol, e eu estendo as minhas mãos em direcção ao amanhã e vejo as meninas e os seus "tios". E faz sol cá dentro, no meio do peito onde bate este coração direito que sabe que quem lhe está à esquerda e à direita são raízes, são família, são o norte e o sul das decisões, são colo e ombro, são a certeza de quem está ali, sempre.

28/05/2014

The fallen angel















...na verdade, quando olho, quando revejo mentalmente os dias, quando analiso, pondero e escrutino as decisões, tudo aquilo que digo ou que calo, todos os pensamentos que escondo, quantas vezes a mim própria, no momento em que me caem dos lábios amarguras e palavras assassinas, na verdade, nesses instantes recordo que me fiz assim nos dias que passei a tornar menos duras as esquinas da memória, fechada sobre mim, muda, seca, vencida, porque um dia "you, you happened to me" e isso não deixa pedra sobre pedra ou ossos intactos, porque  te enche de vazio  e escuro e desse labirinto perigoso só regressam os que escolhem viver, no matter what.

27/05/2014

I'm the captain of my soul



















Podia ser um mantra, mas não, é apenas a decisão de alguém que largou a âncora, e as pedras, e os pesos, borda fora. There is nothing to be afraid of ... já não há medo, nem papões, gastou-se tudo e de repente, somos livres. Percebo agora o poder dessa grilheta chamada culpa, dessa prisão invisível do dever, e de repente I am free.

19/05/2014

Me, myself and I


















Tristemente feliz e sem palavras ou felizmente triste pelas estradas feitas de letras. A felicidade não me inspira à escrita. :)

14/05/2014

I shall doubt.













"Kings of Convenience" e uma manhã de sol afastam terrores nocturnos. Ou se calhar não, mas distraem, enquanto murmuro o mantra habitual na esperança que a inevitabilidade daquela névoa cinzenta se mantenha afastada hoje e amanhã e depois, e depois, e depois... O medo, a esperança, a lágrima, o sorriso, o sentido de urgência e o aperto da angústia, chegam e partem em vagas cuja lógica desconheço mas que começo a perceber fazerem de mim aquilo que sou.

12/05/2014

[sem título]














Nesse espaço entre o braço e o ombro, nesse momento entre a penumbra e o adormecer, fica a eternidade.