01/02/2016

The lonely runner
























Sei exactamente o momento onde nasceu esta permanente vontade de fugir. De ir embora, virar costas, fechar a porta devagarinho, e partir. Guardo cá dentro uma vontade permanente, sufoco-a com a razão mas se lhe perco a guarda, se me distraio, regressa voraz.E nem é preciso os dias serem tristes, basta uma memória, uma palavra, um vislumbre do antes. Crescem-me muros e distâncias e então, devagarinho, parto. Sei exactamente o instante em que me tornei esta lonely runner.

12/01/2016

Underwater

Naqueles dias, pegava no carro e guiava em direcção ao mar. Corria a marginal, com os olhos presos ao horizonte, ali uma curva mais apertada e mais à frente o passeio e depois uma baía pequena com barcos a ondular. Guiava sempre com o mesmo destino, uma estrada de terra batida que saía da estrada e entrava mata adentro e depois, quando assentava a nuvem de pó, o mar. Desligava o motor, descalçava os sapatos e acendia um cigarro. Nos dias de frio o calor do corpo embaciava o vidro e o fumo entranhava-se no cabelo e na roupa. Estendia as pernas para o banco do lado e ficava ali, quieta e calada, com a nuca encostada à porta e os pés pousados no banco do lado. De Inverno só os surfistas passavam por aquele canto. Vinham em bandos, de dois ou três, e ao fim de um tempo já só sorriam, habituados à visão da miúda fumadora que ficava dentro do carro horas sem fim. Nas tardes de Verão, depois do cigarro e da rotina do silêncio, quando sol se punha e a noite começava a nascer, saía e descia até à areia. Sentava-se na linha entre a areia ainda quente e a molhada com o queixo assente nos joelhos dobrados. Os surfistas continuavam dentro de água. Via-lhes os ombros cobertos de neoprene, os caracóis alourados e invejava-lhes a paz. Naquela hora de modorra as gaivotas pousavam e o mar subia devagarinho até lhe tocar nos dedos dos pés. Deixava cair a noite e os surfistas saíam da água, passavam por ela "olá, por cá outra vez?", e seguiam habituados que estavam ao seu silêncio. A praia ficava vazia e podia então levantar-se e caminhar até a água lhee tocar a cintura. Só ela e o mar.

...das coisas que me perturbam.




15/10/2015

Pele à flor dos sentimentos

Imagem: Sandra Brown Rarey

























Tenho uma pele fina que não me resguarda de sentimentos e dores, da realidade e do passado, das palavras que mesmo ditas com descuido doem e acordam fantasmas que tento conter, que me invadem e corroem o sono. E, fico ali, deitada, de olhos abertos ao negro, com aquela dor funda que se entranha no peito e faz o coração bater descompassado, e me esvazia de palavras ou gestos. Tenho uma fina pele que não me guarda dos medos, culpas e pecados, esqueletos que dormem por sob a almofada à espera do instante em que uma palavra incauta os acorda e os traz de novo à vida removendo esta fina camada de derme que não defende o que sou daquilo que devia ter sido.

01/08/2015

Once upon a time...

Fecho os olhos, à noite, e imagino. Um quarto pintado de branco, com janelas viradas ao sol debruadas a cortinados de linho fresco. Uma cama de ferro e lençóis de flores, rosas pequenas e folhas verdes, e o cheiro de pão quente e leite morno. Fecho os olhos à noite, e imagino que acordo com os teus olhos poisados em mim, e a tua mão a descansar-me no peito. E então eu sorrio e passo os meus dedos pelos teus lábios que conheço de cor. Fecho os olhos, à noite, e imagino. Os dois deitados lado a lado, de pernas enroscadas, e risos e sussurros e dias de Verão, e a brisa a entrar pela janela, e o som dos miúdos na cozinha, e o barulho do dia lá fora. Fecho os olhos, à noite, e espero. Que os dias que hão-de vir sejam longos e plenos, plenos de riso, plenos de nós, os dois, lado a lado, deitados numa cama de rosas como antes, como deveria ter sido.

16/06/2015

It is what it is.


























Num tempo de antes, ou desde que me recordo, luto contra mim. Luto para calar pensamentos negros e mágoas, para fazer melhor, para ser mais misericordiosa, paciente, sensata, solidária. Mesmo naquele instante silencioso, em que olho em frente e vejo primos e tios e amigos, alinhados nas cadeiras da capela, naquele dia único onde retomamos as raízes da família grande e dispersa, a única coisa que peço é para ser melhor, menos imperfeita, mais feita e talhada na cepa de quem me dá a mão.
Nesta luta contra o que sou, nesta guerra entre o que consigo e o que não alcanço fica a vida feita de dias bons e menos bons e retomo a meada: mais perfeita, menos egoísta, mais serena, mais companheira, melhor...

08/06/2015

Assim começa Abril (15)

No tempo em que o mundo começava no portão do pátio e terminava no cajueiro do fundo da rua, os dias corriam longos e mornos, e o tempo parecia não ter fim. A nuvem anual de gafanhotos cobria o céu durante um dia inteiro e sabíamos que estava a começar o estio. O chão passava de castanho a amarelo, e os pés, descalços ou vestidos de chinelos, ficavam secos e pele entre os dedos gretava. Nesses dias escondíamo-nos do sol nos ramos da árvore mais alta, os mais crescidos a empurrarem os pequenos e os mais fortes a estenderem mãos e braços para não deixar ninguém prisioneiro do rio de pó. Sentados, na ramada que ainda persistia, decorávamos, ou aprendíamos palavras estranhas, o nome dos pássaros e rimas e risos. Naquele tempo não sabíamos que o mundo era maior que fim da rua, e que além do mata, para lá da serra, na terra plana e seca onde corriam as pála-pála, havia gente igual a nós.

04/06/2015

F**kin' Perfect...

...repito mentalmente o refrão, como se fosse um mantra, como se pudesse afastar o negro, as dúvidas, e o medo. Penso amiúde que a vida e os filhos deviam vir com livro de instruções, ou que devia haver sempre, ao alcance da mão ou de um grito, um adulto, mais adulto do que eu.
F**kin'perfect,  quando chegar aqui é o meu The End, acabou-se o filme.

27/04/2015

[in silence]




As vezes invade-me um silêncio profundo que me seca as palavras e me fecha o corpo. Demoro dias a retomar a vida do lado de fora, habituada como estou a viver cá dentro, neste lugar onde sou livre de ser tal qual sou. E agora reparo que se torna cada vez mais difícil abandonar este mundo seguro onde não há dúvidas ou dores.

25/04/2015

25 Abril....sempre!

























Todos os anos, a 25 de Abril, renovamos a esperança. Mergulhamos num mar de gente, rubro de cravos, embalados na Grândola e descemos aquele oceano de esperança que é a avenida. Cumprimos a tradição que nos há-de aconchegar dias e preocupações, voltamos a fazer crescer a convicção de que é pela mãos dos que sonham que o "mundo pula e avança", e recordamos os dias que nos fizeram chegar aqui. As meninas já sabem de cor a letra da Grândola e trauteiam-na sem precisar de ajuda enquanto dão a mãos aos "tios" e sorriem seguras. Gosto deste ritual anual da braçada de cravos vermelhos, de braço dado com os amigos, os melhores de todos, aqueles a quem confio desgostos e ilusões, e naquele abraço, onde cabem as pequenas, retomo a certeza de que são precisos mil para continuar Abril, mas que me bastam dois ou três companheiros para que a minha jornada se faça assim, feliz. Foi bonita a festa.

15/04/2015

Assim começa Abril (14)




















No caminho de terra batida, da entrada ao ribeiro, havia abacaxis a decorar as bermas. Cresciam sem cuidado ou aprumo, lançando as folhas verdes acima do capim. A mãe e o Januário apanhavam os abacaxis maduros e cortavam-nos em fatias finas. Nos dias especiais o abacaxi era frito e era servido num travessa branca que se colocava a meio da mesa. Nos dias simples, as fatias redondas descansavam nos pratos antes de as cortarmos em pedacinhos pequenos que se haviam de misturar com a banana e a maçã. Nunca gostei de abacaxi e trocava a minha fatia pelas talhadas de papaia ou pelos gomos muito brancos de anona que o mano se recusava a comer por lhe parecerem “ossos de gente, mãe!”. Mas era dos animais que gostávamos mais. Numa rede o pai criava galinhas e perús. Cá fora, quatro cabras e numas caixas de madeira, coelhos. Eu tinha recebido de presente uma linda coelha de pelo branco e passava horas a dar-lhe folhas verdes e bocadinhos de cenoura. Sentava-a ao meu colo, debaixo de uma árvore, e ficava ali horas esquecida a ver as cabrinhas pequenas e os pássaros. Quem tomava conta da machamba era o Nando que tinha a sua palhota à entrada. Na verdade o Nando era dono e senhor dos terrenos e ele e o pai passavam horas a conferenciar sobre animais e plantas. A palhota era redonda e à frente tinha uma cerca feita de ramos que protegia tomateiros e malaguetas. De quando em vez, encontrávamos lá penduradas cobras mortas. O Nando matava-as para que não matassem as galinhas. Depois, deixava-as ali para que as vissemos, e mais tarde, tirava-lhes a pele para vender e a carne para o caldo. Gostava do Nando, e da sua mão calejada. Quando ficávamos sozinhos dava-me a mão por conhecer a minha fama de fugidia e passeava-me. “Ali são os buraquinhos dos grilos, se chegar lá com uma palhinha e lhes fizer cócegas, eles cantam” dizia-me a sorrir. Sentava-se comigo à beira do regato a contar-me a história da Lua apaixonada pelo sol e tirava-me os espinhos e pedras que se enfiavam por entre os dedos dos pés. “Tem de calçar os sapatos menina!” repetia com medo de ver chegar a mãe de Lisboa que não me deixava pular descalça..

14/04/2015

Assim começa Abril (13)




















A cidade estava igual e no entanto nunca tinha parecido tão diferente. A avenida larga, decorada a palmeiras, estava quase sempre vazia. Já não havia grupos de mulheres a descer e a subir, nem soldados espraiados pelas esplanadas, nem crianças pela mão das amas. Apenas silêncio. Imenso. O silêncio dominava os dias e fazia as horas esgotarem-se numa eternidade. Abria a porta da loja e ficava ali, na penumbra, hora após hora sem saber se ficava ou partia. Uma vez por semana, decorava a montra, num ritual de papel de cores e veludo negro e vermelho. E então via-os seguir pela rua, silenciosos. Os soldados da Frelimo, em vagas serenas e ininterruptas. “Quase crianças” pensou, enquanto colava um pedaço de veludo negro na prateleira onde iria colocar os bonitos colares de coral vermelho que tinham acabado de chegar da Índia. Ali, de joelhos, atrás do vidro, sentia-se exposta e visível, e não podia olhá-los como fazia por detrás da persiana ao cair da noite quando chegava a casa e o Januário lhe sussurrava que entrasse depressa. A sua rua, paredes meias com o mato, era agora uma fronteira aberta entre o que fora e o que iria ser. “O que irá ser de nós, para onde vamos?”, perguntava uma e outra vez na cama, depois de deitar o pequeno no berço e de aconchegar o sono dos mais velhos. “Para lado nenhum” respondia ele. O marido que respirava África e sonhava com os dias de liberdade, não queria partir..

07/04/2015

Assim começa Abril (12)

Nampula, 1972

Os meninos levantaram-se cedo naquele dia. As malas, pequenas, azul para o rapaz e rosa para a pequena, estavam prontas e encostadas à porta. A caminho da cozinha olhou-as com angústia, sentiu o vazio a entrar-lhe no peito e nem a caneca de café quente conseguiu aquecer-lhe as pontas dos dedos. Lá dentro ouvia-se o barulho dos pés pequenos a arrastarem o medo. Os pequenos, os seus pequenos, iam partir e tinham medo daquela terra distante que não conheciam, da distância imensa que os separava da rua poeirenta no Verão e húmida e doce com a chegada do Outono. "Na terra da avó também se pode correr?" perguntava o filho, "e há cajueiros para trepar?" perguntava a pequena. E ela encolhia-se, espantava lágrimas, e sorria a sossegar-lhes as dúvidas "Lá também se corre mas cajueiros não há." E a pequena, a quem sobravam tantas perguntas, calava-se, encolhia-se nas cortinas da sala, e ficava quieta a espreitar o muro do jardim e a rua. Foram as semanas mais silenciosas de que se recorda. Os pequenos sentavam-se na soleira da cozinha virados para o pátio, de mãos dadas, condenados a uma solidão muda e quieta que duraria (como mais tarde iria descobrir) muitos meses. Naquele último dia os meninos levantaram-se cedo, tão cedo que o sol ainda não tinha tocado a linha do horizonte e só se adivinhava a manhã no laranja vivo que tingia o céu. E a viagem até ao aeroporto fez-se num silêncio triste, os meninos no banco de trás, com as testas coladas ao vidro do carro, olhos fundos como poços, a ver a vida, e as gentes, e as ruas decoradas de palmeiras.
"Até breve meu amor, até breve!" tinha-lhes murmurado ao ouvido. Depois entregou-os à madrinha que os havia de levar, sãos e salvos, para aquela terra distante do outro lado do mar.
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Assim começa Abril (11)

Nacala, Moçambique


















Do lado de cá do mar fazia frio mas as mãos ainda cheiravam a capim, e os olhos traziam o vermelho cor de sangue do pôr-de-sol. Pousou um pé no asfalto molhado do aeroporto e o coração batia ao ritmo da marrabenta e nos ouvidos guardava o som dos gafanhotos e do adeus do Januário. "Kanimambo", sussurrou agarrada à mão do mano. Fechou os olhos paraguardar a última imagem da serra da Mesa, do cajueiro do final da rua, dos olhos de amêndoa da Fedra, do pátio de casa, dos coelhos que tinha deixado na machamba e da mão do pai no seu cabelo. Não podia saber, naquele dia em que chegou a Lisboa, que 40 anos depois guardaria ainda na memória o cheiro da terra e que nunca esqueceria o som do vento na praia de Nacala.