01/02/2015

O silêncio

Foto: Himanshu Khagta 



















Então pegava no carro e subia à serra em busca de silêncio e  alívio de gente. A estrada estreita, ladeada de pinheiros mansos e serros de granito, quebrados aqui e ali, deixando adivinhar a paisagem. Subia, devagarinho, a saborear o ar quente e o sussurro das árvores, até à curva apertada onde começava o carreiro. Abandonava o carro, esquecido na berma inclinada, trancava as portas e olhava em frente. O trilho, estreito e de terra batida, coberto da caruma seca dos pinheiros, aberto pelas mãos dos homens de antes atravessava primeiro uma zona de pinhal para se perder mais à frente na rocha cinzenta debruçada sobre a arriba. E sentava-se ali, sozinha em silêncio a ver, lá no alto, a mancha dos abutres. Para a esquerda a montanha escondia o início de Espanha e lá em baixo, como um lençol branco, a vila. Uma mancha azul, a piscina, depois as casas alinhadas do bairro, à esquerda. Mais acima, o castelo, e colada à muralha, uma bainha de casas e adivinhava a sua, fervilhante de gente. Ficava ali esquecida do tempo, um cigarro, dois cigarros, a ver  os anéis de fumo a desaparecer no azul, com  o vento nos cabelos e a paisagem a inundar-lhe os olhos. Não pensava em nada, queria apenas deixar-se ir na brisa, nas asas dos melros, num raio de sol. Pela escarpa de granito, no rasto dos coelhos, por entra a caruma e as pinhas secas, no cheiro quente da serra. Ir.

23/01/2015

Em contramão



"E há-de haver outra maneira, de contar a quem não sabe, se me dás a vida inteira, porque só vivi metade"...esta frase martela-me noites e insónias, Não me lembro quando ouvi a música pela primeira vez, estaria na cozinha, com o rádio ligado, e foi certamente no primeiro refrão que se quebraram pratos e entrechocaram talheres num desvario de mãos, numa dança tropega de sentidos e  coração em sobressalto.Assusto-me, ou melhor, espanto-me, com o alinhamento de frases que me acerta em cheio na memória "se me dás a vida inteira, porque só vivi metade".

21/01/2015

O recheio dos dias

























Digo-te que não é a idade que nos ensina, o que nos conduz, nos abre os olhos, nos faz mudar de perspectiva, opinião, ideia. O que nos ensina a vida, é o recheio dos dias, as dores, os instantes de felicidade, as desilusões e os cumes que se alcançam. Não é a idade. Penso muitas vezes que aos 24 anos atingi o pico da idade adulta e ainda assim houve um caminho longo a percorrer. Houve que arrumar a memória e o perdão  que se conquistam a pulso, numa luta de verbo e silêncio, de culpa e aceitação. Não é a idade que nos ensina, o que nos ensina a viver, são os tropeços e as quedas e aqueles momentos singulares em que os teus pés se descolam do chão.
Por isso digo-te, não acredites que mais idade é igual a sapiência ou sensatez. Muitos há que passam pelos dias sem tocarem e sem se deixarem tocar, sem deixar dedadas na alma do tempo ou das gentes, sem cicatrizes mas sem asas.

02/01/2015

2015



















365 dias novinhos a estrear e o único desejo é o mesmo que repito ano após ano: TÉDIO! quero um ano de tédio, monotonia, ramerame, sem novidades, ou mudanças ou acidentes sem percalços....if you know what I mean...

15/10/2014

Old days

Caminhou devagar a ver o sol, e os pombos do largo Camões e respirou fundo. Sentou-se na esplanada da Brasileira e pediu uma bica “dupla sem açúcar, por favor”. Deixou-se ficar ali, a ver o desfile de cor e sotaques, de gente simples que subia atarefada ou distraída a arrastar sacos da H&M e da Zara, os tocadores de flauta, e o raio de sol que por instantes roçou o eléctrico que se arrastava rua acima. O café amargo e quente consolou-a.“Ridícula” pensou, uma vez mais, começava a ser a história da sua vida, sentir-se ridícula nas suas dores e mágoas. E retraía-se com medo de se rever naquelas mulheres neuróticas às voltas com os dramas da manicura e da babysitter e do marido workholic em fatos Armani e a maçada dos jantares de família. “Estou quase lá, já vou ao psi.” Riu-se, para dentro, e por momentos, voltou a sentir-se irónica e simples.

08/10/2014

Os despojos da noite






















Fecho os olhos e "the movie goes on, and on, and on...". Não tenho interruptores nem comprimidos que ponham fim à "never ending story". Fecho os olhos e tento dormir, já passou, já passou, regressa a ti, volta a ser, respira, lenta, pausadamente, fuma mais um cigarro. A janela da frente tem gente, como eu, querem ver o nascer do sol ou a insónia não deu tréguas. Rendo-me. Por favor vence-me, vence-me, cansa-me, ou gasta-me, medos e dúvidas e medos e terrores nocturnos e medos. Agora não, agora quero fechar os olhos e ter uma película nova, com fotogramas brilhantes sem sombras. Por favor. Acende outro cigarro e dá uma festa ao gato. Fecho os olhos com força, mais umas gotas, sete para ser precisa, e já vejo o topo da serra e o abutre de asas abertas, fogem os pardais da muralha e o sono não vem. Já passou, já passou, os dias das sombras, talvez. Fecho os olhos e ele lá está, à minha espera, pausado no momento exacto em que a ponta dos dedos pousou no tampo da mesa do café e o cigarro morria no cinzeiro, naquele segundo que não passa porque ficou congelado nos dias que não foram meus. E depois o cinzento, espesso, húmido, permanente, uma neblina de sentidos e acordo. Sufoco e o sono tarda. Fecho os olhos e sento-me na primeira fila deste filme que "goes on, and on, and on..."


03/10/2014

Stardust

No quintal da terra da raia, nesta noite de Agosto, escura e cortada por uma brisa leve, por entre o breu e e a sombra da serra, quase que a tocar a fantasmagórica capela na coroa da escarpa que conheço de olhos fechados, vi uma estrela cadente. Foi um tão breve instante que poderia apenas ter imaginado aquele fogo fátuo a cruzar os céus. Mas não, vi-a. E arrepio-me sempre com estas analogias perfeitas da vida.

19/09/2014

Dicotomia é...


















... ficar dividida entre o orgulho imenso de ter a filha mais velha ao nosso lado num evento público, a portar-se muito além do que seria expectável numa quase adolescente, e a saudade profunda da menina pequena que ainda agora pedia ajuda para calçar os sapatos.

12/09/2014

Biofobia

























Tremo a cada distância, desfaleço ensandecida pelos quilómetros entre o aqui e agora e o até breve. Palpito e ando sem destino como se os passos desconhecessem a estrada e o coração o seu ritmo. À noite, quando o mundo escurece e sossega, acordam os dias do tempo de antes, passeiam-se por entre os meus dedos e engolem-me os sonhos, e regresso ao que fui e tremo.

11/09/2014

9/11


Fotografia de Justin Lane Pool/Getty Images


















...recordem sempre os que caíram mas recordem os que ficaram. E que desta memória nasça, finalmente, a Paz.

31/07/2014

As árvores morrem de pé


















Na verdade nunca saí de casa. É para lá que se dirigem pensamentos e os passos sempre que os dias me pesam. Aquela casa, pequena, onde me junto aos meus irmãos, ao mais velho para o café de sábado onde se conta a semana; o mais novo, de quando em vez, quando chega à cidade em busca de novidades mas já ansioso pela serrania e pelos balidos das ovelhas. Naquela rua, onde cresci, chamam-me pelo nome de antes, e dão-me beijos, apreciam-me a cintura e as filhas. O meu pai espera por mim para a bica da manhã no café que me viu crescer, e recebo beijos das vizinhas velhas e gargalhadas e palmadas nas costas dos amigos de infância. Em frente ao café, na escadaria velha e suja e gasta pelos dias, sentamo-nos de cigarro nos dedos e discutimos, como antes, no tempo em que a conversa não era cortada pelo telemóvel ou pelo último gadget, política, notícias, famílias, amores e desamores, filhos e o ordenado que vai curto. Noto que estou em minoria, a menina no meio dos rapazes, e sorrio, também como antes. Na verdade nunca saí de onde cresci porque não se arrancam as raízes à árvore sem que ela morra.

A imutabilidade

















Passaram 28 anos, 336 meses, 1461 semanas, 10227 dias, 245448 horas e 14726880 minutos... passaram?