30/03/2015

O lado de lá do mundo



















Vejo isto e choro e cá por dentro correm-me gritos. Queria acreditar numa qualquer-entidade-superior para lhe poder gritar perguntas "porquê?", porque razão há meninos que morrem, que se rendem, que choram, que passam fome, que são órfãos. Que raio de justiça divina ou humana se vinga nos mais frágeis, nos que não podem fugir ou escolher lados. Para onde se escoou a humanidade? Como é possível ver olhos destes e continuar em frente? E queria ter braços, muitos, e compridos, para resgatar meninas como esta e escondê-la num abraço e dizer-lhe "está tudo bem, não há monstros, a noite passa já, foi só um sonho mau...". Por mais anos que viva, por mais coisas que veja, por mais dor que sinta, nada me consegue preparar para imagens destas. E choro porque não consigo fazer mais nada.

24/03/2015

9 anos de migalhinhas






















O tempo corre como o vento, umas vezes em rajadas rápidas que são os centímetros que lhe faltam às calças. Outras, corre suave e quente, como quando ela abre os olhos ao acordar e ainda guarda rastos dos sonhos. Faz 9 anos a migalhinhas, o bebé perfeito que me nasceu numa manhã clara e quente, tão quente, como há muito não se fazia sentir. E corre. A  minha filha corre contra o tempo. Não quis esperar 9 meses para nascer, pouco esperou para andar ou falar e agora despeja perguntas "como se forma o cordão umbilical?", "de que são feitas as nuvens?" ou "os peixes dormem?" e eu sorrio (ou fujo...depende da pergunta) porque sei que naquele corpo, agora esguio, mora uma menina curiosa, tão curiosa e perfeita, que às vezes nem percebo como pode ser minha.

23/03/2015

The pearl



















Não tenho certezas. Ou melhor, apenas uma. E essa guardada, que está desde sempre, já não conta. Não é uma certeza, nem uma decisão, não foi por escolha, é-o pela qualidade do que encerra em si. Inevitável, inadiável, imutável. O tempo foi-lhe limando arestas e ângulos e hoje é apenas a pérola que não magoa a polpa. Uma certeza apenas a navegar num mundo de dúvidas e escolhas.

01/02/2015

O silêncio

Foto: Himanshu Khagta 



















Então pegava no carro e subia à serra em busca de silêncio e  alívio de gente. A estrada estreita, ladeada de pinheiros mansos e serros de granito, quebrados aqui e ali, deixando adivinhar a paisagem. Subia, devagarinho, a saborear o ar quente e o sussurro das árvores, até à curva apertada onde começava o carreiro. Abandonava o carro, esquecido na berma inclinada, trancava as portas e olhava em frente. O trilho, estreito e de terra batida, coberto da caruma seca dos pinheiros, aberto pelas mãos dos homens de antes atravessava primeiro uma zona de pinhal para se perder mais à frente na rocha cinzenta debruçada sobre a arriba. E sentava-se ali, sozinha em silêncio a ver, lá no alto, a mancha dos abutres. Para a esquerda a montanha escondia o início de Espanha e lá em baixo, como um lençol branco, a vila. Uma mancha azul, a piscina, depois as casas alinhadas do bairro, à esquerda. Mais acima, o castelo, e colada à muralha, uma bainha de casas e adivinhava a sua, fervilhante de gente. Ficava ali esquecida do tempo, um cigarro, dois cigarros, a ver  os anéis de fumo a desaparecer no azul, com  o vento nos cabelos e a paisagem a inundar-lhe os olhos. Não pensava em nada, queria apenas deixar-se ir na brisa, nas asas dos melros, num raio de sol. Pela escarpa de granito, no rasto dos coelhos, por entra a caruma e as pinhas secas, no cheiro quente da serra. Ir.

23/01/2015

Em contramão



"E há-de haver outra maneira, de contar a quem não sabe, se me dás a vida inteira, porque só vivi metade"...esta frase martela-me noites e insónias, Não me lembro quando ouvi a música pela primeira vez, estaria na cozinha, com o rádio ligado, e foi certamente no primeiro refrão que se quebraram pratos e entrechocaram talheres num desvario de mãos, numa dança tropega de sentidos e  coração em sobressalto.Assusto-me, ou melhor, espanto-me, com o alinhamento de frases que me acerta em cheio na memória "se me dás a vida inteira, porque só vivi metade".

21/01/2015

O recheio dos dias

























Digo-te que não é a idade que nos ensina, o que nos conduz, nos abre os olhos, nos faz mudar de perspectiva, opinião, ideia. O que nos ensina a vida, é o recheio dos dias, as dores, os instantes de felicidade, as desilusões e os cumes que se alcançam. Não é a idade. Penso muitas vezes que aos 24 anos atingi o pico da idade adulta e ainda assim houve um caminho longo a percorrer. Houve que arrumar a memória e o perdão  que se conquistam a pulso, numa luta de verbo e silêncio, de culpa e aceitação. Não é a idade que nos ensina, o que nos ensina a viver, são os tropeços e as quedas e aqueles momentos singulares em que os teus pés se descolam do chão.
Por isso digo-te, não acredites que mais idade é igual a sapiência ou sensatez. Muitos há que passam pelos dias sem tocarem e sem se deixarem tocar, sem deixar dedadas na alma do tempo ou das gentes, sem cicatrizes mas sem asas.

02/01/2015

2015



















365 dias novinhos a estrear e o único desejo é o mesmo que repito ano após ano: TÉDIO! quero um ano de tédio, monotonia, ramerame, sem novidades, ou mudanças ou acidentes sem percalços....if you know what I mean...

15/10/2014

Old days

Caminhou devagar a ver o sol, e os pombos do largo Camões e respirou fundo. Sentou-se na esplanada da Brasileira e pediu uma bica “dupla sem açúcar, por favor”. Deixou-se ficar ali, a ver o desfile de cor e sotaques, de gente simples que subia atarefada ou distraída a arrastar sacos da H&M e da Zara, os tocadores de flauta, e o raio de sol que por instantes roçou o eléctrico que se arrastava rua acima. O café amargo e quente consolou-a.“Ridícula” pensou, uma vez mais, começava a ser a história da sua vida, sentir-se ridícula nas suas dores e mágoas. E retraía-se com medo de se rever naquelas mulheres neuróticas às voltas com os dramas da manicura e da babysitter e do marido workholic em fatos Armani e a maçada dos jantares de família. “Estou quase lá, já vou ao psi.” Riu-se, para dentro, e por momentos, voltou a sentir-se irónica e simples.

08/10/2014

Os despojos da noite






















Fecho os olhos e "the movie goes on, and on, and on...". Não tenho interruptores nem comprimidos que ponham fim à "never ending story". Fecho os olhos e tento dormir, já passou, já passou, regressa a ti, volta a ser, respira, lenta, pausadamente, fuma mais um cigarro. A janela da frente tem gente, como eu, querem ver o nascer do sol ou a insónia não deu tréguas. Rendo-me. Por favor vence-me, vence-me, cansa-me, ou gasta-me, medos e dúvidas e medos e terrores nocturnos e medos. Agora não, agora quero fechar os olhos e ter uma película nova, com fotogramas brilhantes sem sombras. Por favor. Acende outro cigarro e dá uma festa ao gato. Fecho os olhos com força, mais umas gotas, sete para ser precisa, e já vejo o topo da serra e o abutre de asas abertas, fogem os pardais da muralha e o sono não vem. Já passou, já passou, os dias das sombras, talvez. Fecho os olhos e ele lá está, à minha espera, pausado no momento exacto em que a ponta dos dedos pousou no tampo da mesa do café e o cigarro morria no cinzeiro, naquele segundo que não passa porque ficou congelado nos dias que não foram meus. E depois o cinzento, espesso, húmido, permanente, uma neblina de sentidos e acordo. Sufoco e o sono tarda. Fecho os olhos e sento-me na primeira fila deste filme que "goes on, and on, and on..."


03/10/2014

Stardust

No quintal da terra da raia, nesta noite de Agosto, escura e cortada por uma brisa leve, por entre o breu e e a sombra da serra, quase que a tocar a fantasmagórica capela na coroa da escarpa que conheço de olhos fechados, vi uma estrela cadente. Foi um tão breve instante que poderia apenas ter imaginado aquele fogo fátuo a cruzar os céus. Mas não, vi-a. E arrepio-me sempre com estas analogias perfeitas da vida.

19/09/2014

Dicotomia é...


















... ficar dividida entre o orgulho imenso de ter a filha mais velha ao nosso lado num evento público, a portar-se muito além do que seria expectável numa quase adolescente, e a saudade profunda da menina pequena que ainda agora pedia ajuda para calçar os sapatos.