23/04/2014

Assim começa Abril (6)

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De longe, daquela terra de outro mundo, iam chegando cartas e fotografias. Pediam-lhe muitas vezes notícias dos primos e amigos que lutavam na guerra que por ora ainda estava longe, no norte. E nesses dias o coração encolhia e voltavam-lhe à memória os dias cinzentos.
A cidade, dominada pela grande igreja branca, vivia na sombra do hospital militar de retaguarda para onde eram transferidos os feridos em combate. Homens estropiados, e um cheiro acre a éter e alcóol impregnava o ar mal se entrava a porta grande. Aí descobriu um dia o primo. Muito pálido, sorria por entre os lençóis brancos esticados que lhe escondiam a perna que lhe faltava. “Foi uma mina. Se tirasse o pé morríamos todos, assim perdi só a perna” disse-lhe enquanto ela disfarçava o horror atrás das revistas que levava para lhe entreter as horas. Então escreveu “...o António está bem. Vai ser repatriado em breve e o ferimento foi ligeiro”. Não conseguia dizer a verdade à mãe que esperava o filho único, inteiro e são. Voltava muitas vezes ao hospital, sozinha ou com a filha porque o menino dizia que tinha medo dos “feridos sem cabeça”. E depois rezava, sentada no banco de madeira em frente à imagem de Santo António a pedir protecção para os seus e para os outros, tão jovens nas suas fardas engomadas e olhares tristes. Via-os chegar cheios de vida, espalhavam-se pelos passeios da avenida a comprar lembranças para as mães e noivas que tinham ficado “lá na terra”. Sentavam-se nas esplanadas em frente a uma cerveja e a pratinhos de camarão, rindo e mirando as raparigas morenas de pernas esguias. E, de todas as vezes, pensava quantos deles regressariam inteiros, ou se regressariam de todo.

22/04/2014

Assim começa Abril (5)

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Lisboa era fria, e triste e escura. Nas ruas estreitas não corriam meninos e víamos a calçada do lado de lá do vidro, brilhante de água e vazia de gente. O mano e eu estávamos inscritos na escola que ficava no cimo da rua, o mano na da direita, eu na da esquerda. Era no muro que as dividia que nos encontrávamos a cada recreio. Ficávamos ali, quietos à espera que passassem as horas e pudéssemos finalmente sair juntos o portão, eu seguia para casa da madrinha e o mano para a da avó. Nos primeiros tempos éramos crianças silenciosas, tão silenciosas que nos espreitavam os gestos e o sono à procura de uma qualquer doença. Adormecia a cada noite a imaginar que tudo era um sonho e que iria acordar no dia seguinte  na minha casa com vista para a bananeira e para o quintal da Fedra, e o Januário estaria ali para me levar a escola e me ensinar o nome dos pássaros e palavras novas em macua. Era no silêncio que guardávamos a rua poeirenta, o sabor da água de coco, o cheiro do vento a adivinhar a chuva, o barulho das ondas na praia das Chocas, e a saudade dos pais que tardavam em chegar. E foi no silêncio, nesses muitos meses de silêncio, que escrevi as primeiras memórias da terra que me ficou por sob a pele: "na minha terra é sempre Verão". Tinha 7 anos.

21/04/2014

Assim começa Abril (4)

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Abril já tinha chegado, e lembro-me dos meus pais abraçados a chorar enquanto diziam "somos livres, filha, somos livres" e da gente que aos pouco se foi juntando na sala de ouvido colado à rádio. E lembro-me de fazer calor, e de ver olhos brilhantes e muitas lágrimas, e soldados negros descalços, e da partida do Januário. E lembro-me do que depois esqueci durante muito tempo, lembro-me do medo da minha mãe, do barulho dos helicópteros, do som das botas dos soldados, da mão do meu pai enquanto se despedia de mim no aeroporto, da minha mãe com o mano bebé ao colo, de os ver a acenar lá longe, na varanda do aeroporto, enquanto os meus olhos se enchiam de distância. E durante tantos anos a minha memória recusou-se a lembrar a chegada fria a Lisboa, o cheiro do Inverno, o apelido "retornada", as pedras lançadas que nos acompanhavam até à porta da escola, os risos dos outros quando ouviam chuinga, machibombo ou matabicho, as saudades do Sol...

12/04/2014

Assim começa Abril (3)

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A rua tinha pó e o dia era quente quando os soldados chegaram à cidade. Vinham de longe, de tão longe que as botas não tinham resistido à viagem e as suas roupas tinham perdido a cor. Vinham do fim da rua, e avançavam devagar pela terra batida. Queria ir lá para fora vê-los mas o Januário segurou-me num braço e disse “Não”. Fiquei por detrás dos vidros sob o seu olhar vigilante e foi quando vi a mãe a descer a rampa do pátio em direcção à rua. Foi estranho, porque era a mãe mas, a mesmo tempo, não era. Não me lembro de alguma vez a ter visto com uns olhos tão escuros e tristes, a caminhar tão devagar com um olhar vago e distante, como se dormisse. Levava nas mãos a caixinha de primeiros-socorros que se guardava no armário da casa-de-banho e tinha uma cruz vermelha pintada na tampa. Então sentou-se e ficou muito tempo parada a olhar fixamente para a estrada, e depois para as árvores, e novamente para a estrada.
O mano mais velho pôs-se ao meu lado e deu-me a mão. “São os turras” disse baixinho porque em casa era palavra proibida. O pai tinha ensinado que turras era o nome feio que se dava aos soldados da Frelimo e naquela casa ninguém devia repetir. “Vão para o quartel”, continuou. Já tínhamos ouvido falar da guerra, lá longe, de onde vinham as esculturas de madeira que a mãe coleccionava a par com as bonitas bonecas chinesas. A guerra não era mais do que a visita ao hospital, e o primo António que tinha perdido uma perna ou as cartas que a mãe escrevia à noite sentada no balcão da cozinha. Da guerra só conhecíamos as notícias que se ouviam no velho rádio, à noite quando o sol se punha e a lua invadia o céu.
Lá fora, o rio de gente continuava e a mãe entregava lamelas finas de comprimidos castanhos e a caixinha branca depressa ficou vazia. Os soldados levantavam-se e ficavam uns segundos em silêncio a olhar a mãe que a cada hora que passava parecia mais magra, mais branca e mais vazia. Era tarde, e o sol já não batia na laranjeira quando o Januário saiu de casa e trouxe a mãe para dentro. Puxava-a devagarinho, por um braço, como se estivesse doente. Ficaram muito tempo na cozinha e nós, atrás da porta, só conseguíamos ouvir o choro manso da mãe e a voz do Januário a dizer “já passou senhora, vai ficar tudo bem”. Acho que foi a partir desse dia que passei a vigiar as costas do Januário, imaginando que um dia lhe ia conseguir ver as asas de anjo.

10/04/2014

Assim começa Abril (2)

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Recordou-se de Lisboa e do Tejo, e do barco em Cacilhas, e dos pastéis de Belém comidos entre risos com os primos. Da luz branca reflectida na calçada e do calor abafado de Agosto, e de um fim de tarde no Castelo depois de ter pousado um ramo de flores na igreja de Santo António. E depois os navios, grandes e bojudos, grávidos de soldados agarrados à amurada e um mar de lenços brancos e lágrimas, a decorar o cais da Rocha. Uma massa de gente a acotovelar-se, mães com filhos pequenos, e velhas de negro e as jovens noivas, e depois homens sérios com a vida vincada no rosto e finalmente o silêncio, imponente, a crescer conforme o navio se afastava e se perdia na linha do rio. Foi então que deixou de passear junto ao Tejo, parecia-lhe que cada esquina repetia aquele momento em que abraçada ao António ouvia, pela primeira vez, “Adeus, e até ao meu regresso”. O seu primo mais velho, acabado de chegar das terras quentes do Alentejo, o filho único, a promessa dos pais, que já tinha regressado a casa, carregado de memórias e estropiado. O mar, o imenso gigante líquido, dividia o que era do que fora. Lá, do outro lado da vida, ficara a casa que não tinha tido tempo de estrear, os dias silenciosos e cinzentos e o João fechado na António Maria Cardoso. No início da rua, nos dias claros do Verão, via-se o rio lá ao longe e os barcos da travessia pareciam suspensos por sobre os telhados. Fechou os olhos por instantes a escutar o ronronar das ondas e ficou presa aquele som manso que a fazia esquecer o som dos seus saltos na calçada, e o assobio dos presos por detrás da fachada de cinco andares, e o barulho da porta a fechar-se nas suas costas, e os olhos pequenos do Pide, e o suspiro do João no final de cada visita quando se despediam com um abraço apertado que esperavam sempre não ser o último.

Fotografia Periferia Filmes

28/03/2014

Assim começa Abril

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A filha mais velha hoje no carro perguntou "votar é obrigatório, mãe?". Que não "é um dever e um direito, mas não é obrigatório" respondi. Olhei pelo espelho retrovisor a ver-lhe a reacção e ouvi de volta "...porque muita gente morreu ou foi presa para termos esse direito, não é mãe?". Nem sei como vi o sinal vermelho e atinei com o caminho até à escola porque os meus olhos ficaram rasos de água e a garganta fez-se em nó e só consegui responder "pois é patanisca, pois é". E ficou-me este calor no peito, esta satisfação maternal de saber que mesmo por entre erros e falhas, vou conseguindo fazer destas meninas gente de que me orgulho.

26/03/2014

As coisas que me passam pela cabeça são capazes de dar prisão....

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24/03/2014

8 anos

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Num instante, num segundo, num piscar de olhos, passaram oito anos. Mudei de casa, de trabalho, de cidade, nasceram-me mais dois sobrinhos e a minha filha, a minha migalhinha, faz oito anos. Não sei para onde foram os dias que agora vejo espelhados no corpo esguio da minha filha.
Corro incessantemente à procura desse tempo que não volta, dividida entre o prazer de a ver crescer  e a ver partir.

19/03/2014

A menina do seu pai

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Uma vez, há muitos anos, quando ainda era pequena e o mundo ainda era perfeito, quando o liceu ainda estava a começar e todas as miúdas tinham um paixoneta pela vocalista dos Duran Duran (vão ao Google, vão...) perguntaram-me quem era o meu ídolo, e eu pensei, uns breves segundos, e respondi "o meu pai". Do outro lado, uma sonora gargalhada, "És uma menina do papá".
Pois sou, tantos anos depois e ainda sou :)
Feliz dia, pai!

14/03/2014

Há sociedades que evoluem, depois há um caranguejo chamado Portugal.

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...em compensação cheira-me que vêm aí uns dias de luto nacional e bandeirinhas a meia haste porque parecendo que não um bispo é um bispo.

07/03/2014

O meu mundo não é deste sonho

Posted by 3Picuinhas at 7.3.14 0 comments

Sonhei que tinhas morrido. Que me tinhas morrido. Sei que tinhas morrido, e eu estava sentada numa escada, em silêncio, tentando ligar os dias que se tinham perdido com aquele momento, em que me tinhas morrido. Doía tanto, que no lugar onde devia bater um músculo alimentado a sangue havia um buraco, escuro e fundo, que engolia palavras. E depois as escadas eram uma sala grande cheia de cadeiras. Eu estava sentada, quieta, silenciosa, a apertar as mãos entre os joelhos, e a respirar devagarinho, como faço quando quero parar as lágrimas, e o ar ao entrar nos pulmões parecia lume. Pousaram-me uma mão no ombro e eu olhei para cima, e naquela cara, que eu jurava ter esquecido, havia um sorriso a dizer-me "tu não pertences aqui".
Foi quando gritei, tanto, que acordei e doía-me o maxilar e o lábio, onde nascia uma flor de sangue. 

27/02/2014

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"Sometimes you need to remind yourself that you were the one who carried you through the heartache. You are the one who sits with the cold body on the shower floor, and picks it up. You are the one who feeds it, who clothes it, who tucks it into bed, and you should be proud of that. Having the strength to take care of yourself when everyone around you is trying to bleed you dry, that is the strongest thing in the universe".

28/01/2014

[sem título]

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"I am the master of my fate; I am the captain of my soul."

23/01/2014

25 dias sem tabaco e é mais ou menos isto....

Posted by 3Picuinhas at 23.1.14 0 comments













...vamos colocar ênfase no mais, no MUITO mais.....

15/01/2014

Os dias de antes (..again...)

Posted by 3Picuinhas at 15.1.14 0 comments
















Se fosse possível congelar um minuto de felicidade, se fosse possível parava o tempo neste instante.
 

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