27/04/2015

[in silence]




As vezes invade-me um silêncio profundo que me seca as palavras e me fecha o corpo. Demoro dias a retomar a vida do lado de fora, habituada como estou a viver cá dentro, neste lugar onde sou livre de ser tal qual sou. E agora reparo que se torna cada vez mais difícil abandonar este mundo seguro onde não há dúvidas ou dores.

25/04/2015

25 Abril....sempre!

























Todos os anos, a 25 de Abril, renovamos a esperança. Mergulhamos num mar de gente, rubro de cravos, embalados na Grândola e descemos aquele oceano de esperança que é a avenida. Cumprimos a tradição que nos há-de aconchegar dias e preocupações, voltamos a fazer crescer a convicção de que é pela mãos dos que sonham que o "mundo pula e avança", e recordamos os dias que nos fizeram chegar aqui. As meninas já sabem de cor a letra da Grândola e trauteiam-na sem precisar de ajuda enquanto dão a mãos aos "tios" e sorriem seguras. Gosto deste ritual anual da braçada de cravos vermelhos, de braço dado com os amigos, os melhores de todos, aqueles a quem confio desgostos e ilusões, e naquele abraço, onde cabem as pequenas, retomo a certeza de que são precisos mil para continuar Abril, mas que me bastam dois ou três companheiros para que a minha jornada se faça assim, feliz. Foi bonita a festa.

15/04/2015

Assim começa Abril (14)




















No caminho de terra batida, da entrada ao ribeiro, havia abacaxis a decorar as bermas. Cresciam sem cuidado ou aprumo, lançando as folhas verdes acima do capim. A mãe e o Januário apanhavam os abacaxis maduros e cortavam-nos em fatias finas. Nos dias especiais o abacaxi era frito e era servido num travessa branca que se colocava a meio da mesa. Nos dias simples, as fatias redondas descansavam nos pratos antes de as cortarmos em pedacinhos pequenos que se haviam de misturar com a banana e a maçã. Nunca gostei de abacaxi e trocava a minha fatia pelas talhadas de papaia ou pelos gomos muito brancos de anona que o mano se recusava a comer por lhe parecerem “ossos de gente, mãe!”. Mas era dos animais que gostávamos mais. Numa rede o pai criava galinhas e perús. Cá fora, quatro cabras e numas caixas de madeira, coelhos. Eu tinha recebido de presente uma linda coelha de pelo branco e passava horas a dar-lhe folhas verdes e bocadinhos de cenoura. Sentava-a ao meu colo, debaixo de uma árvore, e ficava ali horas esquecida a ver as cabrinhas pequenas e os pássaros. Quem tomava conta da machamba era o Nando que tinha a sua palhota à entrada. Na verdade o Nando era dono e senhor dos terrenos e ele e o pai passavam horas a conferenciar sobre animais e plantas. A palhota era redonda e à frente tinha uma cerca feita de ramos que protegia tomateiros e malaguetas. De quando em vez, encontrávamos lá penduradas cobras mortas. O Nando matava-as para que não matassem as galinhas. Depois, deixava-as ali para que as vissemos, e mais tarde, tirava-lhes a pele para vender e a carne para o caldo. Gostava do Nando, e da sua mão calejada. Quando ficávamos sozinhos dava-me a mão por conhecer a minha fama de fugidia e passeava-me. “Ali são os buraquinhos dos grilos, se chegar lá com uma palhinha e lhes fizer cócegas, eles cantam” dizia-me a sorrir. Sentava-se comigo à beira do regato a contar-me a história da Lua apaixonada pelo sol e tirava-me os espinhos e pedras que se enfiavam por entre os dedos dos pés. “Tem de calçar os sapatos menina!” repetia com medo de ver chegar a mãe de Lisboa que não me deixava pular descalça..

14/04/2015

Assim começa Abril (13)




















A cidade estava igual e no entanto nunca tinha parecido tão diferente. A avenida larga, decorada a palmeiras, estava quase sempre vazia. Já não havia grupos de mulheres a descer e a subir, nem soldados espraiados pelas esplanadas, nem crianças pela mão das amas. Apenas silêncio. Imenso. O silêncio dominava os dias e fazia as horas esgotarem-se numa eternidade. Abria a porta da loja e ficava ali, na penumbra, hora após hora sem saber se ficava ou partia. Uma vez por semana, decorava a montra, num ritual de papel de cores e veludo negro e vermelho. E então via-os seguir pela rua, silenciosos. Os soldados da Frelimo, em vagas serenas e ininterruptas. “Quase crianças” pensou, enquanto colava um pedaço de veludo negro na prateleira onde iria colocar os bonitos colares de coral vermelho que tinham acabado de chegar da Índia. Ali, de joelhos, atrás do vidro, sentia-se exposta e visível, e não podia olhá-los como fazia por detrás da persiana ao cair da noite quando chegava a casa e o Januário lhe sussurrava que entrasse depressa. A sua rua, paredes meias com o mato, era agora uma fronteira aberta entre o que fora e o que iria ser. “O que irá ser de nós, para onde vamos?”, perguntava uma e outra vez na cama, depois de deitar o pequeno no berço e de aconchegar o sono dos mais velhos. “Para lado nenhum” respondia ele. O marido que respirava África e sonhava com os dias de liberdade, não queria partir..

07/04/2015

Assim começa Abril (12)

Nampula, 1972

Os meninos levantaram-se cedo naquele dia. As malas, pequenas, azul para o rapaz e rosa para a pequena, estavam prontas e encostadas à porta. A caminho da cozinha olhou-as com angústia, sentiu o vazio a entrar-lhe no peito e nem a caneca de café quente conseguiu aquecer-lhe as pontas dos dedos. Lá dentro ouvia-se o barulho dos pés pequenos a arrastarem o medo. Os pequenos, os seus pequenos, iam partir e tinham medo daquela terra distante que não conheciam, da distância imensa que os separava da rua poeirenta no Verão e húmida e doce com a chegada do Outono. "Na terra da avó também se pode correr?" perguntava o filho, "e há cajueiros para trepar?" perguntava a pequena. E ela encolhia-se, espantava lágrimas, e sorria a sossegar-lhes as dúvidas "Lá também se corre mas cajueiros não há." E a pequena, a quem sobravam tantas perguntas, calava-se, encolhia-se nas cortinas da sala, e ficava quieta a espreitar o muro do jardim e a rua. Foram as semanas mais silenciosas de que se recorda. Os pequenos sentavam-se na soleira da cozinha virados para o pátio, de mãos dadas, condenados a uma solidão muda e quieta que duraria (como mais tarde iria descobrir) muitos meses. Naquele último dia os meninos levantaram-se cedo, tão cedo que o sol ainda não tinha tocado a linha do horizonte e só se adivinhava a manhã no laranja vivo que tingia o céu. E a viagem até ao aeroporto fez-se num silêncio triste, os meninos no banco de trás, com as testas coladas ao vidro do carro, olhos fundos como poços, a ver a vida, e as gentes, e as ruas decoradas de palmeiras.
"Até breve meu amor, até breve!" tinha-lhes murmurado ao ouvido. Depois entregou-os à madrinha que os havia de levar, sãos e salvos, para aquela terra distante do outro lado do mar.
.

Assim começa Abril (11)

Nacala, Moçambique


















Do lado de cá do mar fazia frio mas as mãos ainda cheiravam a capim, e os olhos traziam o vermelho cor de sangue do pôr-de-sol. Pousou um pé no asfalto molhado do aeroporto e o coração batia ao ritmo da marrabenta e nos ouvidos guardava o som dos gafanhotos e do adeus do Januário. "Kanimambo", sussurrou agarrada à mão do mano. Fechou os olhos paraguardar a última imagem da serra da Mesa, do cajueiro do final da rua, dos olhos de amêndoa da Fedra, do pátio de casa, dos coelhos que tinha deixado na machamba e da mão do pai no seu cabelo. Não podia saber, naquele dia em que chegou a Lisboa, que 40 anos depois guardaria ainda na memória o cheiro da terra e que nunca esqueceria o som do vento na praia de Nacala.

30/03/2015

O lado de lá do mundo



















Vejo isto e choro e cá por dentro correm-me gritos. Queria acreditar numa qualquer-entidade-superior para lhe poder gritar perguntas "porquê?", porque razão há meninos que morrem, que se rendem, que choram, que passam fome, que são órfãos. Que raio de justiça divina ou humana se vinga nos mais frágeis, nos que não podem fugir ou escolher lados. Para onde se escoou a humanidade? Como é possível ver olhos destes e continuar em frente? E queria ter braços, muitos, e compridos, para resgatar meninas como esta e escondê-la num abraço e dizer-lhe "está tudo bem, não há monstros, a noite passa já, foi só um sonho mau...". Por mais anos que viva, por mais coisas que veja, por mais dor que sinta, nada me consegue preparar para imagens destas. E choro porque não consigo fazer mais nada.

24/03/2015

9 anos de migalhinhas






















O tempo corre como o vento, umas vezes em rajadas rápidas que são os centímetros que lhe faltam às calças. Outras, corre suave e quente, como quando ela abre os olhos ao acordar e ainda guarda rastos dos sonhos. Faz 9 anos a migalhinhas, o bebé perfeito que me nasceu numa manhã clara e quente, tão quente, como há muito não se fazia sentir. E corre. A  minha filha corre contra o tempo. Não quis esperar 9 meses para nascer, pouco esperou para andar ou falar e agora despeja perguntas "como se forma o cordão umbilical?", "de que são feitas as nuvens?" ou "os peixes dormem?" e eu sorrio (ou fujo...depende da pergunta) porque sei que naquele corpo, agora esguio, mora uma menina curiosa, tão curiosa e perfeita, que às vezes nem percebo como pode ser minha.

23/03/2015

The pearl



















Não tenho certezas. Ou melhor, apenas uma. E essa guardada, que está desde sempre, já não conta. Não é uma certeza, nem uma decisão, não foi por escolha, é-o pela qualidade do que encerra em si. Inevitável, inadiável, imutável. O tempo foi-lhe limando arestas e ângulos e hoje é apenas a pérola que não magoa a polpa. Uma certeza apenas a navegar num mundo de dúvidas e escolhas.

01/02/2015

O silêncio

Foto: Himanshu Khagta 



















Então pegava no carro e subia à serra em busca de silêncio e  alívio de gente. A estrada estreita, ladeada de pinheiros mansos e serros de granito, quebrados aqui e ali, deixando adivinhar a paisagem. Subia, devagarinho, a saborear o ar quente e o sussurro das árvores, até à curva apertada onde começava o carreiro. Abandonava o carro, esquecido na berma inclinada, trancava as portas e olhava em frente. O trilho, estreito e de terra batida, coberto da caruma seca dos pinheiros, aberto pelas mãos dos homens de antes atravessava primeiro uma zona de pinhal para se perder mais à frente na rocha cinzenta debruçada sobre a arriba. E sentava-se ali, sozinha em silêncio a ver, lá no alto, a mancha dos abutres. Para a esquerda a montanha escondia o início de Espanha e lá em baixo, como um lençol branco, a vila. Uma mancha azul, a piscina, depois as casas alinhadas do bairro, à esquerda. Mais acima, o castelo, e colada à muralha, uma bainha de casas e adivinhava a sua, fervilhante de gente. Ficava ali esquecida do tempo, um cigarro, dois cigarros, a ver  os anéis de fumo a desaparecer no azul, com  o vento nos cabelos e a paisagem a inundar-lhe os olhos. Não pensava em nada, queria apenas deixar-se ir na brisa, nas asas dos melros, num raio de sol. Pela escarpa de granito, no rasto dos coelhos, por entra a caruma e as pinhas secas, no cheiro quente da serra. Ir.

23/01/2015

Em contramão



"E há-de haver outra maneira, de contar a quem não sabe, se me dás a vida inteira, porque só vivi metade"...esta frase martela-me noites e insónias, Não me lembro quando ouvi a música pela primeira vez, estaria na cozinha, com o rádio ligado, e foi certamente no primeiro refrão que se quebraram pratos e entrechocaram talheres num desvario de mãos, numa dança tropega de sentidos e  coração em sobressalto.Assusto-me, ou melhor, espanto-me, com o alinhamento de frases que me acerta em cheio na memória "se me dás a vida inteira, porque só vivi metade".

21/01/2015

O recheio dos dias

























Digo-te que não é a idade que nos ensina, o que nos conduz, nos abre os olhos, nos faz mudar de perspectiva, opinião, ideia. O que nos ensina a vida, é o recheio dos dias, as dores, os instantes de felicidade, as desilusões e os cumes que se alcançam. Não é a idade. Penso muitas vezes que aos 24 anos atingi o pico da idade adulta e ainda assim houve um caminho longo a percorrer. Houve que arrumar a memória e o perdão  que se conquistam a pulso, numa luta de verbo e silêncio, de culpa e aceitação. Não é a idade que nos ensina, o que nos ensina a viver, são os tropeços e as quedas e aqueles momentos singulares em que os teus pés se descolam do chão.
Por isso digo-te, não acredites que mais idade é igual a sapiência ou sensatez. Muitos há que passam pelos dias sem tocarem e sem se deixarem tocar, sem deixar dedadas na alma do tempo ou das gentes, sem cicatrizes mas sem asas.