12/04/2014

Assim começa Abril (3)

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A rua tinha pó e o dia era quente quando os soldados chegaram à cidade. Vinham de longe, de tão longe que as botas não tinham resistido à viagem e as suas roupas tinham perdido a cor. Vinham do fim da rua, e avançavam devagar pela terra batida. Queria ir lá para fora vê-los mas o Januário segurou-me num braço e disse “Não”. Fiquei por detrás dos vidros sob o seu olhar vigilante e foi quando vi a mãe a descer a rampa do pátio em direcção à rua. Foi estranho, porque era a mãe mas, a mesmo tempo, não era. Não me lembro de alguma vez a ter visto com uns olhos tão escuros e tristes, a caminhar tão devagar com um olhar vago e distante, como se dormisse. Levava nas mãos a caixinha de primeiros-socorros que se guardava no armário da casa-de-banho e tinha uma cruz vermelha pintada na tampa. Então sentou-se e ficou muito tempo parada a olhar fixamente para a estrada, e depois para as árvores, e novamente para a estrada.
O mano mais velho pôs-se ao meu lado e deu-me a mão. “São os turras” disse baixinho porque em casa era palavra proibida. O pai tinha ensinado que turras era o nome feio que se dava aos soldados da Frelimo e naquela casa ninguém devia repetir. “Vão para o quartel”, continuou. Já tínhamos ouvido falar da guerra, lá longe, de onde vinham as esculturas de madeira que a mãe coleccionava a par com as bonitas bonecas chinesas. A guerra não era mais do que a visita ao hospital, e o primo António que tinha perdido uma perna ou as cartas que a mãe escrevia à noite sentada no balcão da cozinha. Da guerra só conhecíamos as notícias que se ouviam no velho rádio, à noite quando o sol se punha e a lua invadia o céu.
Lá fora, o rio de gente continuava e a mãe entregava lamelas finas de comprimidos castanhos e a caixinha branca depressa ficou vazia. Os soldados levantavam-se e ficavam uns segundos em silêncio a olhar a mãe que a cada hora que passava parecia mais magra, mais branca e mais vazia. Era tarde, e o sol já não batia na laranjeira quando o Januário saiu de casa e trouxe a mãe para dentro. Puxava-a devagarinho, por um braço, como se estivesse doente. Ficaram muito tempo na cozinha e nós, atrás da porta, só conseguíamos ouvir o choro manso da mãe e a voz do Januário a dizer “já passou senhora, vai ficar tudo bem”. Acho que foi a partir desse dia que passei a vigiar as costas do Januário, imaginando que um dia lhe ia conseguir ver as asas de anjo.

10/04/2014

Assim começa Abril (2)

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Recordou-se de Lisboa e do Tejo, e do barco em Cacilhas, e dos pastéis de Belém comidos entre risos com os primos. Da luz branca reflectida na calçada e do calor abafado de Agosto, e de um fim de tarde no Castelo depois de ter pousado um ramo de flores na igreja de Santo António. E depois os navios, grandes e bojudos, grávidos de soldados agarrados à amurada e um mar de lenços brancos e lágrimas, a decorar o cais da Rocha. Uma massa de gente a acotovelar-se, mães com filhos pequenos, e velhas de negro e as jovens noivas, e depois homens sérios com a vida vincada no rosto e finalmente o silêncio, imponente, a crescer conforme o navio se afastava e se perdia na linha do rio. Foi então que deixou de passear junto ao Tejo, parecia-lhe que cada esquina repetia aquele momento em que abraçada ao António ouvia, pela primeira vez, “Adeus, e até ao meu regresso”. O seu primo mais velho, acabado de chegar das terras quentes do Alentejo, o filho único, a promessa dos pais, que já tinha regressado a casa, carregado de memórias e estropiado. O mar, o imenso gigante líquido, dividia o que era do que fora. Lá, do outro lado da vida, ficara a casa que não tinha tido tempo de estrear, os dias silenciosos e cinzentos e o João fechado na António Maria Cardoso. No início da rua, nos dias claros do Verão, via-se o rio lá ao longe e os barcos da travessia pareciam suspensos por sobre os telhados. Fechou os olhos por instantes a escutar o ronronar das ondas e ficou presa aquele som manso que a fazia esquecer o som dos seus saltos na calçada, e o assobio dos presos por detrás da fachada de cinco andares, e o barulho da porta a fechar-se nas suas costas, e os olhos pequenos do Pide, e o suspiro do João no final de cada visita quando se despediam com um abraço apertado que esperavam sempre não ser o último.

Fotografia Periferia Filmes

28/03/2014

Assim começa Abril

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A filha mais velha hoje no carro perguntou "votar é obrigatório, mãe?". Que não "é um dever e um direito, mas não é obrigatório" respondi. Olhei pelo espelho retrovisor a ver-lhe a reacção e ouvi de volta "...porque muita gente morreu ou foi presa para termos esse direito, não é mãe?". Nem sei como vi o sinal vermelho e atinei com o caminho até à escola porque os meus olhos ficaram rasos de água e a garganta fez-se em nó e só consegui responder "pois é patanisca, pois é". E ficou-me este calor no peito, esta satisfação maternal de saber que mesmo por entre erros e falhas, vou conseguindo fazer destas meninas gente de que me orgulho.

26/03/2014

As coisas que me passam pela cabeça são capazes de dar prisão....

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24/03/2014

8 anos

Posted by 3Picuinhas at 24.3.14 0 comments
Num instante, num segundo, num piscar de olhos, passaram oito anos. Mudei de casa, de trabalho, de cidade, nasceram-me mais dois sobrinhos e a minha filha, a minha migalhinha, faz oito anos. Não sei para onde foram os dias que agora vejo espelhados no corpo esguio da minha filha.
Corro incessantemente à procura desse tempo que não volta, dividida entre o prazer de a ver crescer  e a ver partir.

19/03/2014

A menina do seu pai

Posted by 3Picuinhas at 19.3.14 0 comments
Uma vez, há muitos anos, quando ainda era pequena e o mundo ainda era perfeito, quando o liceu ainda estava a começar e todas as miúdas tinham um paixoneta pela vocalista dos Duran Duran (vão ao Google, vão...) perguntaram-me quem era o meu ídolo, e eu pensei, uns breves segundos, e respondi "o meu pai". Do outro lado, uma sonora gargalhada, "És uma menina do papá".
Pois sou, tantos anos depois e ainda sou :)
Feliz dia, pai!

14/03/2014

Há sociedades que evoluem, depois há um caranguejo chamado Portugal.

Posted by 3Picuinhas at 14.3.14 0 comments



















...em compensação cheira-me que vêm aí uns dias de luto nacional e bandeirinhas a meia haste porque parecendo que não um bispo é um bispo.

07/03/2014

O meu mundo não é deste sonho

Posted by 3Picuinhas at 7.3.14 0 comments

Sonhei que tinhas morrido. Que me tinhas morrido. Sei que tinhas morrido, e eu estava sentada numa escada, em silêncio, tentando ligar os dias que se tinham perdido com aquele momento, em que me tinhas morrido. Doía tanto, que no lugar onde devia bater um músculo alimentado a sangue havia um buraco, escuro e fundo, que engolia palavras. E depois as escadas eram uma sala grande cheia de cadeiras. Eu estava sentada, quieta, silenciosa, a apertar as mãos entre os joelhos, e a respirar devagarinho, como faço quando quero parar as lágrimas, e o ar ao entrar nos pulmões parecia lume. Pousaram-me uma mão no ombro e eu olhei para cima, e naquela cara, que eu jurava ter esquecido, havia um sorriso a dizer-me "tu não pertences aqui".
Foi quando gritei, tanto, que acordei e doía-me o maxilar e o lábio, onde nascia uma flor de sangue. 

27/02/2014

Posted by 3Picuinhas at 27.2.14 0 comments



















"Sometimes you need to remind yourself that you were the one who carried you through the heartache. You are the one who sits with the cold body on the shower floor, and picks it up. You are the one who feeds it, who clothes it, who tucks it into bed, and you should be proud of that. Having the strength to take care of yourself when everyone around you is trying to bleed you dry, that is the strongest thing in the universe".

28/01/2014

[sem título]

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"I am the master of my fate; I am the captain of my soul."

23/01/2014

25 dias sem tabaco e é mais ou menos isto....

Posted by 3Picuinhas at 23.1.14 0 comments













...vamos colocar ênfase no mais, no MUITO mais.....

15/01/2014

Os dias de antes (..again...)

Posted by 3Picuinhas at 15.1.14 0 comments
















Se fosse possível congelar um minuto de felicidade, se fosse possível parava o tempo neste instante.

07/01/2014

Os dias de antes

Posted by 3Picuinhas at 7.1.14 0 comments

August Sander, "Grandmother and Granddaughter", 1911-14 (Tate Museum)

A avó chegou da metrópole, era assim que os pais chamavam à cidade distante de que já não guardava memória, e desceu devagarinho as escadas do avião enquanto nós, lá no alto da varanda do aeroporto, acenávamos e gritávamos “Avó, avó!”. A mãe abraçou-se à sua mãe e sorriu quando a avó lhe pousou a mão na cara “Filha, minha filha…” e nós ficamos com um aperto no peito, aquele que mais tarde aprenderia a reconhecer e a que os crescidos chamam “emoção”. A avó trazia na mão uma mala pequena de onde puxou um lenço branquinho e bordado com a letra H “de Helena, como o teu nome” diria ela pousando o olhar em mim antes de me puxar para os seus braços e me dar o abraço mais forte de que tenho memória.

31/12/2013

Bye bye 2013

Posted by 3Picuinhas at 31.12.13 0 comments






...e pronto, lá vais tu à tua vidinha e eis que chegam 365 dias novinhos, mesmo a pedir para serem estragados :)...o humor não está grande coisa mas há que ter em conta que esta que vos escreve iniciou o ano com abstinência ad eternum de tabaco, há que ter paciência....muita...durante muito tempo....e antes que me esqueça: Desejo-vos um 2014 mais jeitosinho se possível.

12/12/2013

:D:D:D my life

Posted by 3Picuinhas at 12.12.13 2 comments















(retirado daqui: http://anglophilemeetsbibliophile.tumblr.com/)
 

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