29/01/2013
Remington
Parada no carro, sob o sol de Inverno, espanto-me com a pincelada de verde do lado de lá do vidro. Por aqui sobrevive ainda um resquício de campo. E lá atrás resiste a fachada velha da fábrica antiga. A minha Remington foi salva aqui, por entre os destroços que sobraram do incêndio da Fábrica de Botões. Era um final de semana e os miúdos da rua largaram as raquetes e a bola para ir ver de perto o fumo negro que durante um dia escondeu o horizonte. Mais de 20, naquela longínqua tarde de Verão, corríamos soltos na praceta divididos por campeonatos. Recordo-me bem das alcunhas (para os mais recentes, akas): Mata-cães, Gordanha, da Paula Gordinha, Fantasma, Aranhiços, do Malaca, e nós, os Ratos. Os miúdos que éramos então, não tinham joelhos mas sim remendos feitos de crostas ensanguentadas. As laranjeiras raquíticas não eram árvores mas barcos e naves. Transportávamos canivetes (como o que um dia ficou cravado na perna do irmão mais velho) e partiam-se braços e pernas (e de vez em quando, dedos, como o polegar do irmão mais novo) e no jogo do mata as meninas, como eu, não eram poupadas a nódoas negras. Nessa tarde, o fumo negro que nascia do lado de lá da estrada, por detrás do terreno baldio onde se escondiam os mais velhos com as namoradas, fez parar o mundo do faz-de-conta e levou-nos, em passo de corrida, para longe dos gritos maternos "Ó Jorge, vem jantar". As fábricas velhas ardiam. O cheiro intenso impregnou-nos a roupa durante dias e o fumo e o barulho e o carro vermelho dos bombeiros entupiram-nos os sentidos. Ficámos por ali muito tempo (nesse tempo de antes ninguém espantava um bando de miúdos sujos e suados de olhos abertos de espanto), muito depois de a água ter afogado as chamas e das fábricas não restarem mais do que fachadas e escombros. E no meio da cinza e das traves caídas, por entre uma paleta de botões derretidos, a minha Remington, sobrevivia.
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1 comments:
Oh, não gosto quando desaparecem bons blogues.
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